16 de out de 2010

Doce Lar Subterrâneo


A rua oferece tudo aquilo que as pessoas procuram, a liberdade. Claro, essa não é a única coisa oferecida por ela, mas é a principal. Quando decidi sair de casa tinha 16 anos, as brigas constantes com meu pai e o alcoolismo de minha mãe me levaram a tomar essa decisão. De começo foi extremamente dificil, me faltava a cama com cobertores quentes, me faltaram também aquelas quatro paredes que ouviam meus desabafos. Na rua o único amigo que existe é a calçada que aguenta seu peso durante o tempo que você tenta sonhar. Deixei para trás uma namorada, pois quando julgava que ela me entenderia, ela me julgou apenas um insensato, acho que hoje eu entendo plenamente que talvez tenha sido insensatez de minha parte deixar as surras constantes e o fedor terrivel de alcool, insensato trocar isso pela rua. Talvez em minha casa eles tenham evoluido, mas aqui na rua, não há uma escada que te faça subir, há apenas buracos, aqueles que certamente você vai cair.
O primeiro buraco chama-se Esquecimento: Assim que sai de casa, tive a esperança de que meus pais me caçariam de uma forma tão alucinada que isso chamaria a atenção da midia, eu seria achado rapidamente, desabafaria toda a dor que eles me causaram, eles me entenderiam e a vida de volta pra casa seria perfeita. Não sei se me procuraram, acredito que sim, mas desistiram de mim e o esquecimento foi o primeiro buraco no qual cai, ele me causou dor, seguido de lágrimas, raiva, decepção. Então me apareceu o segundo buraco e finalmente eu entendi o motivo de chamarem ele de esperança no começo. O primeiro abraço das drogas é doce como o primeiro beijo da mulher amada.
O segundo buraco chama-se Esperança: Ele é mais profundo que o primeiro, mas em seu inicio parece haver uma luz. É nele que se esquece quem nos esqueceu, sorria sem precisar fazer força, guardei o choro e apaguei os sonhos que me cortavam as costas. Este lugar é quente como a nossa casa, tem um abraço mais apertado que o de minha mãe e me dá mais alegrias do que todas as que eu já tive nos outros anos de minha vida. Este é um buraco do qual é praticamente impossivel sair, seus niveis são cada vez mais aconchegantes e o que ele causa depende do quão fundo nele você está. Assim começa, você percebe que por esse segundo lugar vale a pena lutar e morrer, então você percebe outro buraco, e este outro buraco equivale a sentença de prisão perpétua nessas vielas.
O terceiro buraco chama-se Contentamento: Este buraco está intimamente ligado ao segundo, é o segundo quem lhe abre a porta para entrar nesse. E aqui você começa a se sentir melhor que em sua antiga casa, a maior parte daqueles que você conheceu nas ruas está aqui e não pretende deixar de estar. Aqui formam-se as amizades e daqui nascem os novos moradores desse mundo. Sempre que desejamos chegar a este terceiro lugar, precisamos antes passar pelo segundo e é assim que começamos a agradecer por estas ruas, por estes estranhos, por estes restos e por estes vicios. A vida em rua torna-se vida finalmente e já não lamentos ao céus por estarmos nela. Aqui conhecemos e lutamos para continuar onde estamos. A policia, os assistentes sociais, nenhum deles têm o direito de nos tirar do que chamamos lar, aqui construimos nossa história e temos o direito de continuar vivendo nas páginas de nossos livros. Então chega-se em um buraco irreal, acreditamos estar em outro, mas nem deixamos de sair do anterior...
O quarto buraco chama-se Loucura: Aqui, nossos amigos que já morreram retornam para ficar sempre ao nosso lado. Tudo a minha volta me irrita, sinto que estão invandindo o que é meu por direito. EU SUPEREI AS DIFICULDADES IMPOSTAS POR ESSAS PEDRAS! EU DEI MEU SANGUE POR COMIDA! EU FUI SURRADO SEM MOTIVO! EU FUI EXPULSO PARA A CHUVA! Vocês nunca entenderão o que é a loucura, pois ela nasce da sanidade e seres automáticos como vocês não sabem o que é ser são. Assim vai-se chegando o último, aquele que é acompanhado de uma passagem para virar um corpo a ser estudado em faculdades e colégios.
O quinto buraco chama-se Adeus.
Se me perguntarem sobre arrependimento, acho que apenas irei sorrir.