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16 de out. de 2010

Doce Lar Subterrâneo


A rua oferece tudo aquilo que as pessoas procuram, a liberdade. Claro, essa não é a única coisa oferecida por ela, mas é a principal. Quando decidi sair de casa tinha 16 anos, as brigas constantes com meu pai e o alcoolismo de minha mãe me levaram a tomar essa decisão. De começo foi extremamente dificil, me faltava a cama com cobertores quentes, me faltaram também aquelas quatro paredes que ouviam meus desabafos. Na rua o único amigo que existe é a calçada que aguenta seu peso durante o tempo que você tenta sonhar. Deixei para trás uma namorada, pois quando julgava que ela me entenderia, ela me julgou apenas um insensato, acho que hoje eu entendo plenamente que talvez tenha sido insensatez de minha parte deixar as surras constantes e o fedor terrivel de alcool, insensato trocar isso pela rua. Talvez em minha casa eles tenham evoluido, mas aqui na rua, não há uma escada que te faça subir, há apenas buracos, aqueles que certamente você vai cair.
O primeiro buraco chama-se Esquecimento: Assim que sai de casa, tive a esperança de que meus pais me caçariam de uma forma tão alucinada que isso chamaria a atenção da midia, eu seria achado rapidamente, desabafaria toda a dor que eles me causaram, eles me entenderiam e a vida de volta pra casa seria perfeita. Não sei se me procuraram, acredito que sim, mas desistiram de mim e o esquecimento foi o primeiro buraco no qual cai, ele me causou dor, seguido de lágrimas, raiva, decepção. Então me apareceu o segundo buraco e finalmente eu entendi o motivo de chamarem ele de esperança no começo. O primeiro abraço das drogas é doce como o primeiro beijo da mulher amada.
O segundo buraco chama-se Esperança: Ele é mais profundo que o primeiro, mas em seu inicio parece haver uma luz. É nele que se esquece quem nos esqueceu, sorria sem precisar fazer força, guardei o choro e apaguei os sonhos que me cortavam as costas. Este lugar é quente como a nossa casa, tem um abraço mais apertado que o de minha mãe e me dá mais alegrias do que todas as que eu já tive nos outros anos de minha vida. Este é um buraco do qual é praticamente impossivel sair, seus niveis são cada vez mais aconchegantes e o que ele causa depende do quão fundo nele você está. Assim começa, você percebe que por esse segundo lugar vale a pena lutar e morrer, então você percebe outro buraco, e este outro buraco equivale a sentença de prisão perpétua nessas vielas.
O terceiro buraco chama-se Contentamento: Este buraco está intimamente ligado ao segundo, é o segundo quem lhe abre a porta para entrar nesse. E aqui você começa a se sentir melhor que em sua antiga casa, a maior parte daqueles que você conheceu nas ruas está aqui e não pretende deixar de estar. Aqui formam-se as amizades e daqui nascem os novos moradores desse mundo. Sempre que desejamos chegar a este terceiro lugar, precisamos antes passar pelo segundo e é assim que começamos a agradecer por estas ruas, por estes estranhos, por estes restos e por estes vicios. A vida em rua torna-se vida finalmente e já não lamentos ao céus por estarmos nela. Aqui conhecemos e lutamos para continuar onde estamos. A policia, os assistentes sociais, nenhum deles têm o direito de nos tirar do que chamamos lar, aqui construimos nossa história e temos o direito de continuar vivendo nas páginas de nossos livros. Então chega-se em um buraco irreal, acreditamos estar em outro, mas nem deixamos de sair do anterior...
O quarto buraco chama-se Loucura: Aqui, nossos amigos que já morreram retornam para ficar sempre ao nosso lado. Tudo a minha volta me irrita, sinto que estão invandindo o que é meu por direito. EU SUPEREI AS DIFICULDADES IMPOSTAS POR ESSAS PEDRAS! EU DEI MEU SANGUE POR COMIDA! EU FUI SURRADO SEM MOTIVO! EU FUI EXPULSO PARA A CHUVA! Vocês nunca entenderão o que é a loucura, pois ela nasce da sanidade e seres automáticos como vocês não sabem o que é ser são. Assim vai-se chegando o último, aquele que é acompanhado de uma passagem para virar um corpo a ser estudado em faculdades e colégios.
O quinto buraco chama-se Adeus.
Se me perguntarem sobre arrependimento, acho que apenas irei sorrir.

20 de set. de 2010

Cadeira de Rodas


Minha vida continua como que em conta-gotas e nada do que eu faço traz de volta aquela vontade de andar pelas ruas e sorrir para estranhos sóis que continuam se pondo. Os dias passam e percebo apenas quando vários passaram e você mal para ao meu lado, sempre com uma desculpa inventada na hora e não revisada, sempre com um eu te amo que não busca olhos e um abraço que se dá de costas. Meu tédio é sentir que não há remédio para o que o mundo fez de mim, e que você se pensa tão esperta julgando que eu não percebi seus enganos.
Já não sou eu quem lembra você das coisas que ficaram por fazer, é você quem lembra de algo que ficou por comprar, de algum passeio sozinho que não conseguiu completar. E das minhas tardes solitárias escorregam pelo chão panos molhados de dúvidas, que você faz questão de tornar quentes. Aonde levam tuas ruas? De que cor brilham as flores que você vê? Seu destino achou caminho longe do meu? Já pensei em levantar e te seguir, unir as forças poucas e encontrar a verdade com os olhos, fotografar na alma o que o peito já espera. O amor é a crueldade com uma bela maquilagem.
Mais um dia fora, mais uma noite na cama, teus encantos vão ficando aos poucos na porta da frente, cada você que entra é mais feio que o passado. E aquele belo e sorridente passado tornou-se presente com lágrimas e tristezas no corpo. Meu corpo já cansado de estar sozinho busca forças onde não pode encontrar, busca movimentos que não saem do lugar e você nunca está, pra ver a evolução que eu posso alcançar, pra sorrir o sorriso que eu posso te dar, você nunca está. E da minha solidão junto histórias que não posso confirmar, decoro suas contradições que não posso apontar, sinto seu lábio cada vez mais seco e seu desejo cada vez mais distante do meu corpo.
Sigo assim, a vida em conta-gotas por culpa de pernas que desaprenderam a andar.

14 de ago. de 2010

Homem e Mar


Assiste as ondas do mar irem e voltar, de sua sala vê o belo sol terminando de se afogar. O whisky molha-lhe a garganta, mantêm a mente entorpecida, o que não faz sumir a dor de estar sozinho no dia de seu 45º aniversário. Lembra das pessoas que pisou e as inconsequências que cometeu para chegar onde está.
Sente faltado amigo que já não há?
Orgulha-se dos pais que já não são?
Arrepende-se de pai não ser?
Mas, apesar das perguntas, tem certeza do que realmente é...
É solidão sentada no sofá, olhando o mar eternamente ir e voltar, nunca cessando sua luta de chegar a algum lugar. Além de solidão, é também ódio e perdição, inconsequência sem arrependimento, é branco por fora e por dentro, ausência de sentimentos que deveriam colorir sua alma. É o primeiro homem totalmente preenchido pela solidão e a solidão é branca, como a cegueira que quase matou o mundo. Não acredita em vida após a morte, em inferno ou paraiso e é por isso que não se arrepende do que fez. Tem o que dizem ser essencial para a boa vida na sociedade de hoje em dia, muitos o invejam e muitos são invejados por ele, mas ele inveja apenas aqueles que como ele buscam uma resposta na luta eterna do mar.
Uma resposta que as ondas nunca vão mostrar.

14 de jul. de 2010

Carta de Prazer com um Adiantado Adeus


Vivendo e aprendendo segue a pena caindo e o peito cedendo e é assim que a luta vai adiante, meus braços já não fecham, são as feridas de uma seringa viciada em mim. Já não sinto dor e nem esse ópio me faz efeito... O problema é o pedido do meu corpo que perde as forças, que pede o suicídio e que se excita a cada nova picada deste mosquito da morte. Meu corpo, meu templo de perdição, meus braços são territórios do prazer. O passado é passado quando corre por minhas veias o incessante prazer deste analgésico e atualmente só ele é capaz de me dar um orgasmo, esse sem igual, mas não recomendado. Jogam-nos na cara em alguns bons filmes a imperfeição dessa sociedade, nos pedem pra muda-la, mas poucos vêem esses bons filmes e poucos são os insatisfeitos com a sociedade. Eu, insatisfeito com a sociedade e comigo mesmo me escondo embaixo desse cadáver ambulante, e escondia a sociedade cada vez que injetava minha salvação... É ilusão acreditar que a salvação não cobra nada, a salvação tem um braço dado a perdição e esse segundo braço é maior e mais forte que o outro, me sinto perdido em minha salvação, a sociedade já não se esconde como antes e só me resta a raiva por essa sujeira toda, mas o corpo me impede de lutar, a mente me convence que é mais fácil aumentar a dose "isso vai dar certo!" ele me diz e eu vou cego e burro atender esse pedido que não para... Tenho consciência de que isso irá me matar um dia, mas se viver for olhar a vida com os olhos frustrados de quem não pode muda-la prefiro minha heroína, ela me faz deitar e esquecer que isso ainda existe. Por isso uma Carta de Prazer com um futuro Adeus.

PS1: Esse texto não procura fazer nenhum tipo de apologia ao uso de drogas
PS2: Não, eu não sou drogado.

20 de jun. de 2010

Romeu e Julieta


Cruzei meus olhos com os dela, estava sozinha em uma mesa, parecia triste, seus olhos imploravam companhia. Olhei ao redor e não havia mais mesas vazias, famílias completas e amigos de longa data infestavam o lugar de alegria. Ela lá sentada e sozinha era o preto e branco de uma foto colorida. Me aproximei e pedi cadeira, além claro de um pedaço da mesa, prometi não lhe incomodar, expliquei que tenho mania de comer rapidamente e sem tirar os olhos da comida era preciso apenas que ela ignorasse a minha presença. Ela aceitou, pareceu disposta e ver através de mim, me deu um sorriso, infelizmente o sorriso não apagou sua cara de tristeza... Sentei-me e comecei a comer, ela comentou o fato do lugar estar completamente cheio, eu concordei e lamentei o fato de ter de incomoda-la para almoçar, tinha uma bela voz, aquela moça sem nome, disse ela que eu não estava incomodando, que odiava almoçar sozinha, mas para afastar-se de casa fazia isso as vezes. A conversa continuou, não sabíamos o nome um do outro mas conversamos, como velhos amigos, ela foi se soltando, o sorriso apareceu em sua boca e agora eu era capaz de perceber a beleza daqueles olhos azuis. Perguntou-me o que costumava fazer, menti sobre minha carreira e sobre gostos pessoais, a beleza dela me cativava e a realidade sobre minha pessoa faria ela desistir. As garfadas foram passando e nós conversando, o ar ignorava o som que devia chegar até nós, o restaurante era lotado, mas havia ali apenas eu e ela. O assunto as vezes parava, mas nossos olhos não se desviavam, "pintava o clima" como costuma-se dizer hoje em dia, continuou assim o almoço até termina-lo, comprei refrigerantes para beber e poder continuar o papo, era um bom papo. Ela sabia conversar, era interessante, e parecia sincera, o que pensaria se descobrisse a fantasia em minha atitude? O que ela acharia do verdadeiro eu? Estas são perguntas sem tempo para serem respondidas, e continuando a falar de tempo, o tempo passou e eu já devia ir embora. Disse a ela que tinha um compromisso, ela sorriu gentilmente, disse que era uma pena, que estava sozinha e que não teria nada para fazer em casa. Fui obrigado a dizer-lhe a verdade, eu não tinha compromisso, apenas estava me achando inoportuno na mesa junto dela, convidei-a para irmos a outro lugar, quem sabe passear entre as árvores de um parque, disse a ela que apesar de tudo eu era de confiança. Ela disse de volta que saberia se defender caso eu não fosse... E assim saímos de lá, caminhamos até um parque próximo, olhar árvores é melhor do que caminhar olhando para prédios e carros. O clima melhorou e eu já queria aqueles lábios em minha boca, mulher encantadora... A caminhada foi longa e a conversa não decaiu em qualidade um segundo sequer, nos queríamos e ambos sabíamos disso. Finalmente nos rendemos ao encanto da situação, nos beijamos apaixonados pela atenção dada ao outro, e o beijo foi tenro, os lábios dela tinham, que José de Alencar me perdoe o plágio, eles tinham gosto de mel e duraram quanto nosso fôlego permitia durar, a mulher dos olhos tristes era agora uma menina de sorriso fácil... A paixão alegra o coração dos tolos... Mas Cronos é cruel e decidiu que aquilo não deveria tardar. Sorrimos um ao outro dizendo que tudo tinha sido ótimo, ela me passou seu número de telefone, enquanto eu dei o meu a ela, demos um beijo de despedida como um velho casal de namorados.
Gostaria de saber qual o motivo do tempo passar tão rápido nessas ocasiões em que queríamos que ele se estendesse ao máximo...

Viraram-se as costas, cada um em uma direção, jogaram os papéis com os números ao lixo... atualmente é assim a alegria, as belas histórias de amor, não passam de um dia.

13 de mar. de 2010

Teatro de Rua


Hoje eu resolvi escrever algo feliz, e percebi que escrever sobre felicidade é mais dificil do que escrever sobre tristeza. Tentei dar um sentido diferente as palavras que sempre escrevo, elas soam sempre com o mesmo tom, o som que não muda...
Vesti uma roupa leve de cor branca, treinei um sorriso na frente do espelho, fiz piadas tão péssimas que nem eu ri... Relembrei os filmes de comédia que vi e tentei mais uma vez convencer o meu reflexo de que eu tinha talento para o stand-up. O reflexo riu, mas não das piadas que contei e sim do papel de idiota que eu estava fazendo. Desisti, resolvi dar uma volta pelas ruas...
Olhei o rosto das pessoas e percebi que muitas delas pareciam preocupadas ou tristes e as poucas que pareciam alegres, não contagiavam o resto. Pensei que era uma cidade triste, estranhamente isso me alegrou, sendo a cidade triste eu não conseguiria me sentir um peixe fora d'água, pela primeira vez, senti que eu era parte dessa sociedade... A sociedade que multiplicou os pierrôs e tem os arlequins escondidos pelos cantos.
O sorriso brotou em minha boca de forma natural, cumprimentei as pessoas, dei dinheiro a um malabarista, ajudei uma senhora a atravessar a rua, eu me sentia bem, me sentia parte da sociedade, essa sociedade triste me abraçava e eu lhe dava um beijo molhado e sorridente no rosto...
Andei pelas ruas de uma forma que nunca havia andado, aproveitei o asfalto, aproveitei as construções, não tossi com a fumaça cuspida pelos carros, eu consegui ter um bom passeio.
Abri a porta de casa, e toda a escuridão nela trancada bateu em mim com força, fui para o espelho e me xinguei de hipócrita, de mentiroso e de idiota. O reflexo me olhou abismado, deu uma risada sem graça e me disse tranquilamente.
- Todos os outros que como você sorriam, todos eles estão agora chorando em suas casas. Não há quem tenha motivos pra sorrir sinceramente pelas ruas... Não se confunda, você é o que é, e todos são o que você é... Tristeza.
E as cortinas do meu dia se fecharam. Ser ator é fácil, todos são.

2 de mar. de 2010

Aos Opostos da Vida



Era um jovem, e como jovem não via o mundo como um lugar pra ser levado a sério. A música alta, as pessoas pulando, isso lhe chamava atenção. Brigava com os pais e xingava os irmãos, vivia seu mundo de festas de emoção, não a vida triste que seus pais levavam em vão. Acreditava que vida seria curta, que poderia morrer daqui um ano, um mês, um dia, agora... Afastava esses pensamentos com a batida rápida que o coração batia para acompanhar a música. Sorria aos desconhecidos, apertava a mão de novos amigos, desprezava a mãe, provocava o pai, era um jovem em descensão.
Teve várias paixões, vários corpos em seu colchão, vários prazeres em suas mãos, mas era um jovem e como principal característica vinha tatuada em seu corpo a insatisfação.
Criou inimigos e velou o corpo morto de vários amigos... As pesquisas dizem que quem mais morre são os jovens, o futuro do mundo é morto e ele em breve seria mais um número nas estatísticas.
E pra que se preocupar? Não se sentia amado por sua família, morria de amores de um só dia e só o que sua mente e corpo pediam, era mais uma música para terminar a noite. E a noite se passava com bebidas no copo, misturas de corpos e os amigos mortos, enterrados e esquecidos.
A morte dos amigos nunca pesou-lhe como cruz as costas, eles morreram como ele desejava morrer, com um sorriso na boca e sem ter tempo pra sofrer. Invejava os amigos mortos, a vida não lhe satisfazia, mas enquanto a vivia preferia manter-se embriagado, mergulhado em música alta... Isso o fazia esquecer, ou apenas não pensar.

O tempo passou e a morte não veio, seus pensamentos mudaram... Largou os conflitos, arranjou um amor. Entregou flores a mãe e deu um abraço amoroso no pai. Os irmãos o visitam no domingo e os amigos são bons e velhos amigos. Quando jovem, sempre perguntou-se o que fazia de um homem, um homem. Hoje a resposta brinda-o todo dia nos olhos de seu filho, na voz fina que lhe chama "pai", no sorriso amoroso de sua mulher servindo o jantar, no emprego bom que lutou para arranjar. Hoje sabe ser um homem, e seguindo seus antigos amigos o jovem que era morreu e foi enterrado, esquecido e amargado.
Ter um filho deu-lhe a obrigação de ter um amor. "Um homem só começa a amar quando se sente obrigado a fazer isso", era essa frase que seus pensamentos diziam ao entardecer, sentado a frente de sua casa, vendo o sol se pôr, indagando porque tão belo era o céu antes de morrer e dar lugar a mais uma tenebrosa noite. Seu filho cresceu e fe-lo sofrer como seu pai sofreu, percebeu que os jovens são todos iguais e que um coração só cresce quando quer. Seu principal problema era pensar demais, tentava encontrar a resposta em tudo o que fazia, cuidava seu jardim durante o dia, o silêncio era terapia e sua mente viajava. Via o céu entardecer e durante a noite abraçava o corpo de sua mulher. "Depois que aprende a amar, o homem ama até ser capaz de chorar"

Quando seu filho foi embora, sentiu um vazio se apoderar do seu peito. A mulher solitária era agora lembrada apenas quando o desejo vinha lhe bater na cabeça. Tentava mudar isso que agora era rotina. Via-a solitária, amargurada ao assistir a felicidade em novelas, mas não se lembrava onde guardou sua responsabilidade, em qual das gavetas seus papel de homem fora esquecido. O ninho agora era vazio e seu peito se esvaziou junto dos anos. Os mesmos anos que trouxeram de repente o homem de volta.
Esse dia era cheio de chuva, todos o abraçavam e entregavam seus lamentos. Olhou para o rosto dela que parecia tão tranqüilo, mas a razão lhe jogava a verdade por dentro dos olhos e sabia que o coração dela era infeliz. A culpa de deixa-la morrer infeliz deu lugar a velha raiva juvenil, brigou com os filhos e com seu jardim. Matou as flores fez o sol não mais vir belo como antes.
Um dia antes do dia que sempre esperou uma frase formou-se em sua mente e depois tomou seu coração. "Um homem nunca aprende a amar nada além de si mesmo". Ao constatar essa, que era sua verdade absoluta, ele chorou feito uma criança e não parou de derramar suas lágrimas até o seu dia final chegar. E chegou tranqüilo, sem bater na porta, sem fazer alarde.
Morreu ao perceber que é tudo tão errado. "O homem só é capaz de se sentir satisfeito ao fazer alguém sofrer" Depois disso, sua voz perdeu a força e seu coração se contraiu. A dor de todos que fez sofrer, doeu em seu corpo. Ele morreu.

12 de jan. de 2010

Memorial da Vergonha


Eram belos dias aqueles vividos com a brisa do mar e com o céu azul. Mulheres e mais mulheres, festas e amigos que fazem e trazem mais amigos. Eram belas tardes quando o sol se punha e o beijo era certo na garota que eu queria. Eram noites instigantes, abraçado ao corpo nu das mais belas meninas, assim formei minha juventude, vivendo de sons e toques em corpos que mal conhecia. Assim formei o que chamo de boas lembranças, boas fotos, bons tempos. Tempos estes que não vão mais voltar, nunca dei atenção o suficiente a quem merecia, amores jogados no lixo ou pendurados no armário cheios de poeira. Nunca amei, nunca me apaixonei, só queria ter e cada vez que tinha, queria ter mais, eu só fui um devorador de sentimentos, um causador de tormentos e de dores nas pessoas com as quais não queria me preocupar. Tentei aprender o sentido do verbo amar, mas ele nunca mais bateu a minha porta, como as mulheres que tive, ele se levantou enquanto eu dormia, e deixou um beijo de adeus no vidro do banheiro. Eu apaguei cada um daqueles lábios do espelho, apagando junto em minha mente, o gosto e o cheiro daquelas que o beijavam, tantos lábios houveram, tantas cores diferentes, meu espelho deixou de ser límpido e se enegreceu com a decepção de nunca receber o mesmo beijo duas vezes. São amores superficiais estes da juventude, morreríamos como Romeu, morreríamos como o mais galante dos homens, por uma noite apenas. Somos canibais! Tão canibais que um sinônimo de sexo é comer, comemos uns aos outros sem cessar, comemos com as mãos, com a boca, com o olhar, comemos uns aos outros sem pensar. E assim cada dia que passa sem termos outro em nossos braços, lábios, pensamos em morrer, entramos em crise. Valorizamos tanto o canibalismo em nossa sociedade que esquecemos que é sem amor que se morre e não sem sexo. Entendo isso atualmente, jovem não entendia, entendo isso hoje em dia, jovem e amar, eu não precisava, não queria. Disso é feito a minha memória, do sol se guardando tristemente dentro do mar e dando lugar a lua que iluminou os corpos que passaram por minhas mãos, tanta canção, tantas noites em vão, tantas histórias e nomes sem razão, tanto sexo sem paixão.

Aos olhos do que sou hoje, era apenas alguém que não pensava com a cabeça que tem cérebro, um jovem da massa, que pensa em agradar os amigos e não a si mesmo. Atualmente, eu era uma vergonha pra mim mesmo.

14 de nov. de 2009

Re-Conhece


A batida da porta é a última que ouvirei feita pelas mãos dela. Até isso é diferente dos outros... Somos jovens, vivemos juntos desde que nosso olhar se cruzou pela primeira vez... Somos jovens e não decidimos pra onde nossas pernas vão andar, esse é um problema que fica decidido por nossos pais, e eles decidiram nos separar. Ir embora nunca mais voltar. Ela jogou um papel por baixo da porta, nele está um desenhos de nós dois formando o simbolo do infinito. Meu coração sempre será dela e o dela sempre será meu. Coisas assim não acabam com a distância, a distância apenas intensifica o sentimento e nos da força pra lutar e estar junto de novo. Já faz mais de 10 anos que eu a vi pela última vez, ainda sinto o cheiro dos cabelos dela e ainda penso em sua pele branca. Ela é, foi e sempre será a mulher que prendeu a minha alma nessa estrada de longa distância. 10 anos e eu nunca mais a vi, a distância mata e destrói sentimentos. A distância inimiga da esperança e comparsa do que vira história. Ela jurou nunca esquecer de mim, se guardar, se entregar só pra mim e viver... Viver o que nascemos pra viver até o fim. Naquele dia eu não parava de chorar, ela disse que não era necessário que nascemos um pro outro.
- Pode passar quanto tempo passar, mas assim que a gente se ver, vamos nos reconhecer e voltar a nos amar...
Lá ela me deu meu primeiro beijo e foi o último beijo que me deu. Nunca esqueci ela e tenho certeza que ela nunca me esqueceu.
- Olá, eu sou teu...
- Olá, eu sou tua...

Sonho nunca realizado, nunca concretizado. Já faz 12 anos e eu afoguei minhas esperanças no fundo da minha caixa de lembranças. Ela agora é só uma lembrança.

O telefone tocou hoje, era uma mulher chorando...
- Eu acreditei que você me reconheceria, esperei em cada um dos dias que nos cruzamos... e acredite, foram vários dias, você não me viu. Eu esperei por você, pra me entregar pra você e você não fez nem me reconhecer... Adeus.
Adeus.
Adeus.
Adeus.
Adeus.

Ao mundo, adeus...

1 de nov. de 2009

Os Pensamentos Na Frente do Espelho


Cinco longos dias passam na vida de Mauro, os olhos vermelhos já fazem parte de sua rotina desregrada, são os olhos vermelhos de fome, que buscam o vicio desesperadamente. Sua mente está presa na busca pela satisfação e seu corpo clama por mais um pouco de diversão.
- Deixem-me livre! - É o que ele diz para quem quiser ouvir, mas ele é um jovem velho e surdo. Os anos de prazer sugaram sua força e deixaram várias vezes seus ossos espalhados pelo chão. Mauro tolo segue o mesmo caminho, com a certeza de ser um caminho vão, mas também com a certeza de esquecer o mundo. Talvez pense que o mundo é cheio de caminhos vãos, não se pode dizer que ele está errado, afinal, todos têm fugas. Porque fugimos do mundo? Todos desacreditados, mas é a vida... É bonita e é bonita, então quem escondeu essa beleza? Talvez ela esteja enterrada junto com as canções de amigo e os poemas de amor.
Mauro há cinco dias não come, apenas pensa e assim os pensamentos desesperados vão comendo sua já pouca sanidade. Mauro pensa que viver assim é tortura, mas as horas nunca param de passar, as horas nunca param... Só param quando ele tem algo para esperar. Da janela do seu quarto (apelidado por ele de cela), vê as pessoas caminharem, a sociedade os julga livres, mas eles não sorriem, estão presos no mundo, estão presos em suas mentes cheias de problemas. Os livres não sorriem, e os presos são presos por tentar encontrar um modo de sorrir. Mauro pensa e as horas nunca param mesmo paradas elas nunca param, o dia corre de tão arrastado.
São cinco dias de espera e finalmente eles se aproximam, o seguram pelo braço, um condenado...
- Quais são suas últimas palavras? - Diz o carrasco olhando fixamente em seus olhos, um sinal para que ele não diga nada.
- Mesmo assim, mesmo aqui! Sou mais livre que todos vocês. Vivi e busquei sorrir! Só morrem vocês, pois quem, como eu buscou sorrir, vive pra sempre!
O carrasco do espelho não responde.
A lembrança do sorriso que havia em sua boca e o rosto triste dos que não são condenados...
Assim, com essa imagem nos olhos, morreu o primeiro homem por causa da injustiça.