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2 de mai. de 2010

Isto. (Capítulo Primeiro)

Primeira parte do futuro pseudo-livro: Isto (Introdução)



Capítulo Primeiro


Comecei a inexistir a partir do momento que abri os olhos, claro que não tinha idéia disso, mas foi ali que comecei. O primeiro fôlego tomado é apenas pra chorar, nascemos sofrendo, como então negar a existência do sofrimento? Dizem que sofreram pra nos salvar, o nosso sofrimento salva o que/quem? Lembro que a primeira pseudo-existência da minha vida foi lendo um resumo de Os Miseráveis, Senti a mesma vergonha que Fantine sentiu quando vendeu todos os dentes da boca para ter dinheiro e poder assim alimentar sua filha, mais uma vez a memória guardada é a do sofrimento, nesse caso vivido “paralelamente”, o primeiro personagem que senti na pele, minha primeira máscara, uma jovem e bela mãe solteira que pra não deixar a filha morrer de fome, estragou o próprio sorriso. E pra que serve o sorriso que enfeita a boca de tantos homens hoje em dia? Parece-me óbvio que sirva apenas para enganar. A máscara do sorriso é a mais vendida em nosso mundo, sorrimos mostrando todos os dentes, quando na verdade nem teríamos dentes para sorrir se a sinceridade comandasse o mundo. Caem-se dos olhos as lágrimas de amor, nas canções a morte é parceira de estrofe do nome da mulher amada, na vida, a realidade é escondida. O sorriso de um cantor que fale de morte, o martírio de uma musa que ganhou apenas uma poesia... Tudo escondido embaixo do tapete, o mesmo tapete onde o nosso verdadeiro sorriso está perdido. Sufocado pela poeira, pelas cinzas que caem de nossos olhos, quando estes se derramam em dor.
Viver sempre será difícil, para qualquer um, pois no nosso mundo de mentira (não, não se trata de um mundo criado em nossa mente/sonhos), é esse mundo mesmo, que pisamos no chão, que comemos com as mãos, que enterramos sem cessar, nesse mundo é difícil viver, pois viver nele está ligado a mentir. A mentira é uma verdade incontestável, enquanto a verdade, não passa de mentira. A verdade não existe se não no sonho do louco mais louco, a verdade não existe se não nos olhos do mais morto dos suicidas. O que é a verdade para você leitor? Que recebeu um Eu Te Amo rápido pelo telefone, que foi brindado com o sorriso de um estranho, que foi elogiado quando não merecia? O que é a verdade e o quanto a verdade é valorizada por você? Falar a verdade e receber um não, ou mentir pra receber um sim? Assim pisamos em outra pedra que pode cair... O caráter.

16 de jan. de 2010

Isto. (Introdução)




Introdução


Isto. Não há melhor maneira para definir a tentativa de contar a história de um homem que não existe, este homem inexistente sou eu. Narro aqui a história dele/eu, que busca apenas respostas para perguntas que nem foram feitas.
O principal objetivo disto é jogar ao léu pensamentos, tormentos, quiçá até sofrimentos, desde que isso seja pego pelo abismo onde todas as letras morrem.
Sou o que sou e não há definição melhor pra mim, sou um homem que conta as horas do relógio passar, que vê do céu a água jorrar, que aprecia com fervor os próprios olhos chorar. Um homem inexistente, que de tão não vivo, cria-se em personagens que nunca existiram. Sobrevive a amores que nunca partiram e tem medo de horrores que nunca o perseguiram. A mentira talvez seja a marca de todo escritor, o exagero, a indecisão, a contradição, talvez essas sejam as bases da poesia escrita hoje em dia, talvez essa seja base da minha existência não existida. Porque dos amores vãos nascem tantos sofrimentos? Porque da ganância nasce o crime e não a batalha? Porque no nascer da vida vem a certeza da morte? Não sabendo responder essas questões afirmo sem temor que não existo, e que talvez até você leitor não exista. Essas palavras podem nunca ter sido escritas, lidas, vistas, sofridas, tudo pode nunca ter sido.
E eu me pergunto, e você se pergunta... O que pode então existir? Talvez esse seja o segundo objetivo do livro, saber o que existe... Pra mim, existe o que está marcado em nossos corpos como cicatriz. O sofrimento é uma coisa que existe, que não há como negar, todos nós, os não existentes, nos agarramos ao sofrimento, isso o define como existente. Sempre que guardamos algo em nossa memória, o que mais fica, modifica, edifica é o sofrimento. O sofrimento existe, pois por sofrer de solidão o céu criou a terra e a lua se refletiu no mar.
O futuro é outra coisa que logicamente existe, explico. Quando temos um grande amor, o que mais esquecemos é de vive-lo, pensamos, juntamos, criamos o futuro, segurando a mão da esperança, deixamos o presente de lado e brigamos no futuro. Quando se ama, perguntas como: “você vai sempre estar comigo?”, “Quando nós morarmos juntos, teremos isso?”, chegam a ser clichês, essa é a prova da existência do futuro, não há perguntas como: “você está comigo agora?”, “aqui, agora, eu sou a melhor coisa da sua vida?”, talvez isso prove que não há presente...

Assim, somos todos deuses, inexistentes, mas agarrados/criados a coisas que existem.