1 de set. de 2010

Diário Sem Nome Encontrado no Fim do Mundo (Parte 2)

Quando o Fim Mostrou-se na Janela

Começou durante uma tarde qualquer, o sol estava lá, as pessoas também. A terra girava como tinha de ser, as guerras explodiam, os animais eram mortos para enfeitar a casa ou roupa de alguém rico, ou simplesmente para a diversão de alguns jovens cruéis. A fome doía, a riqueza transbordava e o sexo ainda ardia. O mundo era mundo, com suas desgraças imundo, aquele bom tempo antigo, que naquele tempo não era bom. Tenho saudade do meu mundo quando olho para a terra que hoje se apresenta a mim.
Tudo começou anunciando o fim, e o fim chegou se mostrando eterno, como se a terra deixasse de girar, como se o sol deixasse de iluminar, as ruas se encheram de pavor, os gritos se encheram de temor e o amor deixou de existir por um momento. O fim é negro e na eternidade nada tem cor.
Antes era belo, hoje não é. Antes era populoso, hoje é fantasma. O gosto era bom, saboreável, hoje a comida pode nem ter gosto que a comeremos. Antes o povo sorria, hoje o pouco que existe lamenta e chora. Antes o homem matava... E isso, isso não mudou. O tempo passa e apaga as boas coisas, as ruins são marcas eternas em nosso corpo, como um filme de terror que nunca termina. Assim foi a mudança do mundo, julgavam-no miserável e triste, hoje ele é ainda pior.
Nesse mundo de agora, o que antes era beco, hoje é avenida, os pesadelos que antes só existiam quando fechávamos os olhos, hoje andam livres por onde nossos pés pisam.
O fim mostrou-se pela janela, engolindo o que era vida, transformando tudo o que existia. Ninguém sabe ao certo, só sabem que começou.

27 de ago. de 2010

Olhos fundos de sono mal dormido


Despertador
Alexandre Ferreira (AlxSeth)

Dorme ao som do relógio,
Eterno companheiro de cama.
Dorme ao som do próprio peito,
Calmaria em tempos de guerra.

Acorda atrasado, afobado,
O recado ao seu lado é um beijo de adeus.
A luz não entra em seu espaço,
Ainda é noite, e a batalha faz o sangue correr cedo.

Ouve os pássaros cantarem ao longe,
Mas esse som é atropelado pelos carros.
Vida desenvolvida que conquistou a natureza.

Luta o dia inteiro contra um inimigo conhecido.
Olha-se no espelho e lá está ele,
Olhos fundos de sono mal dormido.
Preocupação estampada por um beijo que já se foi...

Sai da batalha sujo com seu próprio sangue.
O banho não lhe conforta ou lhe cura.
A vida corrida faz doer as pernas.
Pega o relógio, e seus olhos se fecham...

Os olhos se abrem atrasados.
Hoje...
Não existe mais recado ou beijo de adeus...
Vai para o trabalho, rotina mais importante
Que o fim de sua vida de casado.

26 de ago. de 2010

Diário Sem Nome Encontrado no Fim do Mundo (Parte 1)

Ato I

Então eu olhei pro chão, meu destino era sete palmos abaixo dele, certifiquei-me de que tudo estava correto, aquela palavra gravada na parede representava tanto e tão pouco... Verifiquei a corda e pulei... Fim.

O Pouco Eu que Resta

Nesse mundo não é necessário ter nome ou idade, isso já não importa nem a mim mesmo. Não fui alguém importante, muito menos sou agora. Aqui não vale posição social ou poder aquisitivo, o mundo de antes tinha como pessoas invejadas aqueles cheios de dinheiro e que conquistaram seus sonhos...

(Um pequeno parênteses)

(Lembro-me da hipocrisia com a qual era brindado todos os dias, com a mentira de que alguém pobre poderia alcançar a riqueza com o estudo e com o trabalho, me lembro dos dias mais antigos, onde as mensagens na TV eram sobre não deixar a esperança morrer. Me recordo também de uma frase que virou clichê de tão falada: "Quem acredita sempre alcança". E o quê alcançamos? Essa é a recompensa por acreditar sempre?

O Pouco Eu que Resta (Retomada)

... Nesse Miserável Mundo Novo os invejados são aqueles que mantêm a família perto, aqueles capazes de se protegerem e de protegerem quem amam. Nesse mundo que fez de todos solitários, os invejados são os amados, os abençoados com a força e a família. Também há aqueles exemplos a serem seguidos, esses são os mais selvagens, assassinos sem igual, aqueles que fazem de tudo para aproveitar a vida que lhes resta. Um mundo que valoriza a família e aqueles guerreiros solitariamente sanguinários. Mundo Contradição, Miserável Mundo Novo...
Já não tenho sentimentos, não me arrependo de te-los enterrados juntos de minha família. Pra mim já não há tempo para amor, não há tempo pra arte.
Deus condenou o mundo arrancando de quase todos os homens o único sentimento que lhes dava forças pra continuar, o amor foi destruído por deus e antes disso tudo, eu só sabia amar, amava tudo o que tinha. Nessa época ainda sorria, sorria como se aqueles minutos de felicidade fossem os últimos e não eram, tenho medo que os últimos minutos nunca cheguem, afinal, o castigo dos homens foi ter o amor substituido pelo sofrimento e este castigo não seria justo se não fosse eterno.
O pouco eu que resta segue vivo por medo de morrer e encontrar um lugar pior, se é possível algo pior que isso, melhor não desafiar Murphy. O pouco eu que resta é pura morte, mas que insiste em andar, que insiste em vida... Que é contraditório e esperançoso.

14 de ago. de 2010

Homem e Mar


Assiste as ondas do mar irem e voltar, de sua sala vê o belo sol terminando de se afogar. O whisky molha-lhe a garganta, mantêm a mente entorpecida, o que não faz sumir a dor de estar sozinho no dia de seu 45º aniversário. Lembra das pessoas que pisou e as inconsequências que cometeu para chegar onde está.
Sente faltado amigo que já não há?
Orgulha-se dos pais que já não são?
Arrepende-se de pai não ser?
Mas, apesar das perguntas, tem certeza do que realmente é...
É solidão sentada no sofá, olhando o mar eternamente ir e voltar, nunca cessando sua luta de chegar a algum lugar. Além de solidão, é também ódio e perdição, inconsequência sem arrependimento, é branco por fora e por dentro, ausência de sentimentos que deveriam colorir sua alma. É o primeiro homem totalmente preenchido pela solidão e a solidão é branca, como a cegueira que quase matou o mundo. Não acredita em vida após a morte, em inferno ou paraiso e é por isso que não se arrepende do que fez. Tem o que dizem ser essencial para a boa vida na sociedade de hoje em dia, muitos o invejam e muitos são invejados por ele, mas ele inveja apenas aqueles que como ele buscam uma resposta na luta eterna do mar.
Uma resposta que as ondas nunca vão mostrar.

Mundo Sozinho


Ao meu lado há um coração partido, largado ao vento, ao frio. Bate fraco, desiludido... Sua poesia já é de poucos versos. Talvez ahaja uma história de luta e vitória em seu passado e, aqui agora, bate fraco por um duro golpe que o destino lhe pregou. Há também a possibilidade de bombear o veneno de alguma doença sem cura e, aqui agora, olha esse pobre mundo podre enquanto deixa de viver.
É um coração e a quem olha? A quem pertence? Que lembranças o quecem? É um coração largado ao frio do esquecimento, batendo fraco, sem intentos. O que o fez ficar assim? Quanto vale? Amou? Sofreu? Ninguém pode saber, somento o coração que sente até mesmo o que já se foi, e o que foi?
Foi ele (um coração) e só.
Não posso fazer nada para salva-lo, talvez até seja um aviso, talvez seja meu coração, talvez apenas esteja aqui pra provar que mesmo diante do sofrimento mais profundo em uma pessoa, não fazemos nada para ajudar ou melhora-la.
O coração agora é mudo e o que impera é mente e mundo.

14 de jul. de 2010

Carta de Prazer com um Adiantado Adeus


Vivendo e aprendendo segue a pena caindo e o peito cedendo e é assim que a luta vai adiante, meus braços já não fecham, são as feridas de uma seringa viciada em mim. Já não sinto dor e nem esse ópio me faz efeito... O problema é o pedido do meu corpo que perde as forças, que pede o suicídio e que se excita a cada nova picada deste mosquito da morte. Meu corpo, meu templo de perdição, meus braços são territórios do prazer. O passado é passado quando corre por minhas veias o incessante prazer deste analgésico e atualmente só ele é capaz de me dar um orgasmo, esse sem igual, mas não recomendado. Jogam-nos na cara em alguns bons filmes a imperfeição dessa sociedade, nos pedem pra muda-la, mas poucos vêem esses bons filmes e poucos são os insatisfeitos com a sociedade. Eu, insatisfeito com a sociedade e comigo mesmo me escondo embaixo desse cadáver ambulante, e escondia a sociedade cada vez que injetava minha salvação... É ilusão acreditar que a salvação não cobra nada, a salvação tem um braço dado a perdição e esse segundo braço é maior e mais forte que o outro, me sinto perdido em minha salvação, a sociedade já não se esconde como antes e só me resta a raiva por essa sujeira toda, mas o corpo me impede de lutar, a mente me convence que é mais fácil aumentar a dose "isso vai dar certo!" ele me diz e eu vou cego e burro atender esse pedido que não para... Tenho consciência de que isso irá me matar um dia, mas se viver for olhar a vida com os olhos frustrados de quem não pode muda-la prefiro minha heroína, ela me faz deitar e esquecer que isso ainda existe. Por isso uma Carta de Prazer com um futuro Adeus.

PS1: Esse texto não procura fazer nenhum tipo de apologia ao uso de drogas
PS2: Não, eu não sou drogado.

1 de jul. de 2010

Sobre Aquilo que me Deu Vida


Mais me vale ter palavras pra contar e conta-las mal, do que guardar em silêncio esse medo inconstante de perder a chance de brilhar letras em futuros livros. Mais me vale a incerteza de um final, do que a ausência de um inicio. Mais me vale o vicio ao ócio, mais me vale a linha torta do que a escrita perdida. E valendo-se tudo assim ao escritor, segue esse seu caminho sem temor, lutando em frente de batalhas que não existem, velando tristezas em enterros no céu. Semear poesia nesse asfalto de impurezas, incertezas de compreensão, é o trabalho mais difícil que se tem em mãos, não mais honrado que aquele que cuida das feridas ilusórias do coração, nem mais imoral que aquele que entrega a carne ao prazer alheio. Escrever é arte, talvez a arte seja a vida, mas é a morte quem dita a eternidade de um autor. Morre uma poesia hoje, morre uma prosa amanhã e de tanto morrerem as boas letras, chegará o dia em que páginas em branco serão arte, nesse dia a árvore da escrita terá sido podada, as lendas de suas grandes raízes que ainda residem abaixo do chão, serão contadas como se os tempos bons fossem aqueles antigos, e nós, seus ramos novos apodreceremos em seu sangue encardido.