4 de dez. de 2010

Verdade (A Podridão em Laranja: Parte 1)

O começo deveria ter me revelado a verdade, mas cego dos olhos deixei me levar pelo toque de sua pele branca. Nunca havia tocado pele branca assim, deixei-me levar, sabendo que o que começa de forma errada, termina de forma dolorida. Jurei me esforçar, prometi mundos e fundos e me cobrei, cobrei minha fidelidade, cobrei meu amor, cobrei-me até por coisas que eu nunca deveria ter me cobrado. Lutar por um amor é como pedir a morte aos poucos. Sempre houve o que amou mais, se dedicou mais, sempre houve o que levou por levar, para que a solidão não se alastrasse em seus dias, para o prazer não fazer falta.
Eu estive ali, de braços abertos e futuro no fundo dos olhos, esperando o tempo fazer seu serviço e esperando meu tempo de ser feliz. Eu estava ali para afastar o escuro e mostrar a janela aberta. Ofereci-lhe o samba em pratos de amor. Ofereci-lhe o amor em pratos fundos, seu amor me foi servido em sobras, sua dedicação praticamente morta. Eu estava ali tentando acabar com minha carência e esperando destruir a sua, mas seu amor preferiu dedicar-se a braços sujos e abraços de uma noite, beijos sem amor e palavras mentirosas. Ainda hoje você ri da minha cara, enquanto eu choro por trás dessa máscara de força, ainda hoje dizem haver esperanças, ainda hoje meu peito grita ódio e meus olhos largam dor.
Ainda hoje você mentiu me amar, ainda hoje você estava na cama de outra pessoa.

21 de nov. de 2010

tirei Meu Nome do Mundo


Servo
Alexandre Ferreira

Tirei meu nome do mundo
Joguei-o num precipicio profundo.
Não quero que leiam minha biografia,
Que relembrem uma fotografia.

Quero o abismo materno,
De abraço eterno
E escuridão total.
Quero o mal
E de tudo o que nele reside
Quero o Final.

Agora que se foi,
Meu nome já não tenho.
Sou eu e não menos,
O Final e não menos.

Suspiro Final


Ficar sem escrever por muito tempo acumula questões sem resposta nas costas daquele que escreve. Tentei tantos textos e por fim desisti, abandonei-os no lixo e tranquei ali obras que poderiam ter mais de uma vida. Mas nada do meu mundo literário está destinado a viver, dessa minha época de olhos fechados para escritores presentes guarda-se apenas aqueles livros que se transformaram em filmes. O mundo do cinema ainda hoje valoriza suas obras, a literatura parou no inicio do século passado e não tem vontade de olhar para o atual e esquecer o velho. O antigo é eterno na literatura e o novo já perdeu-se no tempo.
As vezes me pergunto meu motivo para escrever, tento achar uma resposta verdadeira que não inclua apenas eu, mas eu e o futuro do mundo. Mas a verdade que me pinta no papel é uma individual e egoista, escrevo pra mim e não para o mundo. O mundo teve Fernando Pessoa, Carlos Drummond, Luís de Camões, Soror Juana Inés de la Cruz, o mundo não precisa da minha escrita, mas eu preciso desse meu desabafo. Com tinta dei vida a tantos textos e com riscos matei tantas escritas. Minha literatura mata minha literatura. O mundo é assim hoje e no futuro continuarão apenas olhando pra trás.

16 de out. de 2010

Doce Lar Subterrâneo


A rua oferece tudo aquilo que as pessoas procuram, a liberdade. Claro, essa não é a única coisa oferecida por ela, mas é a principal. Quando decidi sair de casa tinha 16 anos, as brigas constantes com meu pai e o alcoolismo de minha mãe me levaram a tomar essa decisão. De começo foi extremamente dificil, me faltava a cama com cobertores quentes, me faltaram também aquelas quatro paredes que ouviam meus desabafos. Na rua o único amigo que existe é a calçada que aguenta seu peso durante o tempo que você tenta sonhar. Deixei para trás uma namorada, pois quando julgava que ela me entenderia, ela me julgou apenas um insensato, acho que hoje eu entendo plenamente que talvez tenha sido insensatez de minha parte deixar as surras constantes e o fedor terrivel de alcool, insensato trocar isso pela rua. Talvez em minha casa eles tenham evoluido, mas aqui na rua, não há uma escada que te faça subir, há apenas buracos, aqueles que certamente você vai cair.
O primeiro buraco chama-se Esquecimento: Assim que sai de casa, tive a esperança de que meus pais me caçariam de uma forma tão alucinada que isso chamaria a atenção da midia, eu seria achado rapidamente, desabafaria toda a dor que eles me causaram, eles me entenderiam e a vida de volta pra casa seria perfeita. Não sei se me procuraram, acredito que sim, mas desistiram de mim e o esquecimento foi o primeiro buraco no qual cai, ele me causou dor, seguido de lágrimas, raiva, decepção. Então me apareceu o segundo buraco e finalmente eu entendi o motivo de chamarem ele de esperança no começo. O primeiro abraço das drogas é doce como o primeiro beijo da mulher amada.
O segundo buraco chama-se Esperança: Ele é mais profundo que o primeiro, mas em seu inicio parece haver uma luz. É nele que se esquece quem nos esqueceu, sorria sem precisar fazer força, guardei o choro e apaguei os sonhos que me cortavam as costas. Este lugar é quente como a nossa casa, tem um abraço mais apertado que o de minha mãe e me dá mais alegrias do que todas as que eu já tive nos outros anos de minha vida. Este é um buraco do qual é praticamente impossivel sair, seus niveis são cada vez mais aconchegantes e o que ele causa depende do quão fundo nele você está. Assim começa, você percebe que por esse segundo lugar vale a pena lutar e morrer, então você percebe outro buraco, e este outro buraco equivale a sentença de prisão perpétua nessas vielas.
O terceiro buraco chama-se Contentamento: Este buraco está intimamente ligado ao segundo, é o segundo quem lhe abre a porta para entrar nesse. E aqui você começa a se sentir melhor que em sua antiga casa, a maior parte daqueles que você conheceu nas ruas está aqui e não pretende deixar de estar. Aqui formam-se as amizades e daqui nascem os novos moradores desse mundo. Sempre que desejamos chegar a este terceiro lugar, precisamos antes passar pelo segundo e é assim que começamos a agradecer por estas ruas, por estes estranhos, por estes restos e por estes vicios. A vida em rua torna-se vida finalmente e já não lamentos ao céus por estarmos nela. Aqui conhecemos e lutamos para continuar onde estamos. A policia, os assistentes sociais, nenhum deles têm o direito de nos tirar do que chamamos lar, aqui construimos nossa história e temos o direito de continuar vivendo nas páginas de nossos livros. Então chega-se em um buraco irreal, acreditamos estar em outro, mas nem deixamos de sair do anterior...
O quarto buraco chama-se Loucura: Aqui, nossos amigos que já morreram retornam para ficar sempre ao nosso lado. Tudo a minha volta me irrita, sinto que estão invandindo o que é meu por direito. EU SUPEREI AS DIFICULDADES IMPOSTAS POR ESSAS PEDRAS! EU DEI MEU SANGUE POR COMIDA! EU FUI SURRADO SEM MOTIVO! EU FUI EXPULSO PARA A CHUVA! Vocês nunca entenderão o que é a loucura, pois ela nasce da sanidade e seres automáticos como vocês não sabem o que é ser são. Assim vai-se chegando o último, aquele que é acompanhado de uma passagem para virar um corpo a ser estudado em faculdades e colégios.
O quinto buraco chama-se Adeus.
Se me perguntarem sobre arrependimento, acho que apenas irei sorrir.

26 de set. de 2010

Diário Sem Nome Encontrado no Fim do Mundo (Parte 3)

Ato II

Sentei-me ao chão, era noite e havia me batido uma terrivel saudade de algo que eu nunca mais vou encontrar, foi inevitavel encher meus olhos de água. Chorei por um tempo, peguei uma folha e escrevi uma única palavra, era tão forte e me fazia tão fraco. Ainda restavam 3 balas, uma delas foi aquela tirou a minha vida.

Possíveis Começos para o que Aconteceu

  • Alguns dizem que é o reflexo dos pecados que caiu sobre o mundo.
  • Alguns acreditam que foi a Guerra Geral que finalmente destruiu tudo.
  • Alguns culpam uma doença extremamente contagiosa, que acabou com tudo antes de conseguirem acabar com ela.
  • Outros culpam outréns como sempre é feito pelo mundo.
  • Outros não acreditam em nenhuma dessas alternativas.

Infelizmente nunca haverá concordância sobre como tudo isso teve seu inicio, todos têm uma história pra contar e um motivo para o que ocorreu e quase nunca esses motivos são iguais. Aliás, isso ocorreu há tempo o suficiente para uma explicação não interessar a mais ninguém, só faço esse apontamento de motivos, para deixar como relato histórico caso essa situação consiga ser revertida. Outro ponto a deixar marcado é que os fatos históricos já não são tão importantes, já não há escola para nos lembrar as datas comemorativas, esquecemos os ícones revolucionários e os dias de paz. Os dias agora são de guerra, uma guerra individual, que para nós, parece ser eterna, hoje só nos importa a comida, o abrigo e a sobrevivência.
Sinto muito por não saber explicar o começo, acho até que as pessoas não procuram mais uma explicação (religiosa ou científica), afinal, temos coisas bem mais importantes para nos preocupar.

20 de set. de 2010

Cadeira de Rodas


Minha vida continua como que em conta-gotas e nada do que eu faço traz de volta aquela vontade de andar pelas ruas e sorrir para estranhos sóis que continuam se pondo. Os dias passam e percebo apenas quando vários passaram e você mal para ao meu lado, sempre com uma desculpa inventada na hora e não revisada, sempre com um eu te amo que não busca olhos e um abraço que se dá de costas. Meu tédio é sentir que não há remédio para o que o mundo fez de mim, e que você se pensa tão esperta julgando que eu não percebi seus enganos.
Já não sou eu quem lembra você das coisas que ficaram por fazer, é você quem lembra de algo que ficou por comprar, de algum passeio sozinho que não conseguiu completar. E das minhas tardes solitárias escorregam pelo chão panos molhados de dúvidas, que você faz questão de tornar quentes. Aonde levam tuas ruas? De que cor brilham as flores que você vê? Seu destino achou caminho longe do meu? Já pensei em levantar e te seguir, unir as forças poucas e encontrar a verdade com os olhos, fotografar na alma o que o peito já espera. O amor é a crueldade com uma bela maquilagem.
Mais um dia fora, mais uma noite na cama, teus encantos vão ficando aos poucos na porta da frente, cada você que entra é mais feio que o passado. E aquele belo e sorridente passado tornou-se presente com lágrimas e tristezas no corpo. Meu corpo já cansado de estar sozinho busca forças onde não pode encontrar, busca movimentos que não saem do lugar e você nunca está, pra ver a evolução que eu posso alcançar, pra sorrir o sorriso que eu posso te dar, você nunca está. E da minha solidão junto histórias que não posso confirmar, decoro suas contradições que não posso apontar, sinto seu lábio cada vez mais seco e seu desejo cada vez mais distante do meu corpo.
Sigo assim, a vida em conta-gotas por culpa de pernas que desaprenderam a andar.

18 de set. de 2010

mais Lembranças Do(A) que Realidade


Musas
Alexandre Ferreira & Kuosan

Nada de você restou em mim,
Até o batom de seus beijos já se foi.
Sumiu o cheiro daquele seu perfume
E o espelho já desaprendeu seu rosto.

Esse quarto não conhece mais seu nome,
Caiu-lhe a sua metade da tinta.
Envelheceram aqueles versos de amor
E hoje já não passam de poesia de amigo.

E mesmo que eu sinta uma pequena saudade
Sozinho sigo , não quero mais nada,
Tudo o que vem dele, um dia se vai...
Pelo menos sei que tive uma amada
E só assim as musas são perfeitas,
Mais lembranças do que realidade.

1 de set. de 2010

Diário Sem Nome Encontrado no Fim do Mundo (Parte 2)

Quando o Fim Mostrou-se na Janela

Começou durante uma tarde qualquer, o sol estava lá, as pessoas também. A terra girava como tinha de ser, as guerras explodiam, os animais eram mortos para enfeitar a casa ou roupa de alguém rico, ou simplesmente para a diversão de alguns jovens cruéis. A fome doía, a riqueza transbordava e o sexo ainda ardia. O mundo era mundo, com suas desgraças imundo, aquele bom tempo antigo, que naquele tempo não era bom. Tenho saudade do meu mundo quando olho para a terra que hoje se apresenta a mim.
Tudo começou anunciando o fim, e o fim chegou se mostrando eterno, como se a terra deixasse de girar, como se o sol deixasse de iluminar, as ruas se encheram de pavor, os gritos se encheram de temor e o amor deixou de existir por um momento. O fim é negro e na eternidade nada tem cor.
Antes era belo, hoje não é. Antes era populoso, hoje é fantasma. O gosto era bom, saboreável, hoje a comida pode nem ter gosto que a comeremos. Antes o povo sorria, hoje o pouco que existe lamenta e chora. Antes o homem matava... E isso, isso não mudou. O tempo passa e apaga as boas coisas, as ruins são marcas eternas em nosso corpo, como um filme de terror que nunca termina. Assim foi a mudança do mundo, julgavam-no miserável e triste, hoje ele é ainda pior.
Nesse mundo de agora, o que antes era beco, hoje é avenida, os pesadelos que antes só existiam quando fechávamos os olhos, hoje andam livres por onde nossos pés pisam.
O fim mostrou-se pela janela, engolindo o que era vida, transformando tudo o que existia. Ninguém sabe ao certo, só sabem que começou.

27 de ago. de 2010

Olhos fundos de sono mal dormido


Despertador
Alexandre Ferreira (AlxSeth)

Dorme ao som do relógio,
Eterno companheiro de cama.
Dorme ao som do próprio peito,
Calmaria em tempos de guerra.

Acorda atrasado, afobado,
O recado ao seu lado é um beijo de adeus.
A luz não entra em seu espaço,
Ainda é noite, e a batalha faz o sangue correr cedo.

Ouve os pássaros cantarem ao longe,
Mas esse som é atropelado pelos carros.
Vida desenvolvida que conquistou a natureza.

Luta o dia inteiro contra um inimigo conhecido.
Olha-se no espelho e lá está ele,
Olhos fundos de sono mal dormido.
Preocupação estampada por um beijo que já se foi...

Sai da batalha sujo com seu próprio sangue.
O banho não lhe conforta ou lhe cura.
A vida corrida faz doer as pernas.
Pega o relógio, e seus olhos se fecham...

Os olhos se abrem atrasados.
Hoje...
Não existe mais recado ou beijo de adeus...
Vai para o trabalho, rotina mais importante
Que o fim de sua vida de casado.

26 de ago. de 2010

Diário Sem Nome Encontrado no Fim do Mundo (Parte 1)

Ato I

Então eu olhei pro chão, meu destino era sete palmos abaixo dele, certifiquei-me de que tudo estava correto, aquela palavra gravada na parede representava tanto e tão pouco... Verifiquei a corda e pulei... Fim.

O Pouco Eu que Resta

Nesse mundo não é necessário ter nome ou idade, isso já não importa nem a mim mesmo. Não fui alguém importante, muito menos sou agora. Aqui não vale posição social ou poder aquisitivo, o mundo de antes tinha como pessoas invejadas aqueles cheios de dinheiro e que conquistaram seus sonhos...

(Um pequeno parênteses)

(Lembro-me da hipocrisia com a qual era brindado todos os dias, com a mentira de que alguém pobre poderia alcançar a riqueza com o estudo e com o trabalho, me lembro dos dias mais antigos, onde as mensagens na TV eram sobre não deixar a esperança morrer. Me recordo também de uma frase que virou clichê de tão falada: "Quem acredita sempre alcança". E o quê alcançamos? Essa é a recompensa por acreditar sempre?

O Pouco Eu que Resta (Retomada)

... Nesse Miserável Mundo Novo os invejados são aqueles que mantêm a família perto, aqueles capazes de se protegerem e de protegerem quem amam. Nesse mundo que fez de todos solitários, os invejados são os amados, os abençoados com a força e a família. Também há aqueles exemplos a serem seguidos, esses são os mais selvagens, assassinos sem igual, aqueles que fazem de tudo para aproveitar a vida que lhes resta. Um mundo que valoriza a família e aqueles guerreiros solitariamente sanguinários. Mundo Contradição, Miserável Mundo Novo...
Já não tenho sentimentos, não me arrependo de te-los enterrados juntos de minha família. Pra mim já não há tempo para amor, não há tempo pra arte.
Deus condenou o mundo arrancando de quase todos os homens o único sentimento que lhes dava forças pra continuar, o amor foi destruído por deus e antes disso tudo, eu só sabia amar, amava tudo o que tinha. Nessa época ainda sorria, sorria como se aqueles minutos de felicidade fossem os últimos e não eram, tenho medo que os últimos minutos nunca cheguem, afinal, o castigo dos homens foi ter o amor substituido pelo sofrimento e este castigo não seria justo se não fosse eterno.
O pouco eu que resta segue vivo por medo de morrer e encontrar um lugar pior, se é possível algo pior que isso, melhor não desafiar Murphy. O pouco eu que resta é pura morte, mas que insiste em andar, que insiste em vida... Que é contraditório e esperançoso.

14 de ago. de 2010

Homem e Mar


Assiste as ondas do mar irem e voltar, de sua sala vê o belo sol terminando de se afogar. O whisky molha-lhe a garganta, mantêm a mente entorpecida, o que não faz sumir a dor de estar sozinho no dia de seu 45º aniversário. Lembra das pessoas que pisou e as inconsequências que cometeu para chegar onde está.
Sente faltado amigo que já não há?
Orgulha-se dos pais que já não são?
Arrepende-se de pai não ser?
Mas, apesar das perguntas, tem certeza do que realmente é...
É solidão sentada no sofá, olhando o mar eternamente ir e voltar, nunca cessando sua luta de chegar a algum lugar. Além de solidão, é também ódio e perdição, inconsequência sem arrependimento, é branco por fora e por dentro, ausência de sentimentos que deveriam colorir sua alma. É o primeiro homem totalmente preenchido pela solidão e a solidão é branca, como a cegueira que quase matou o mundo. Não acredita em vida após a morte, em inferno ou paraiso e é por isso que não se arrepende do que fez. Tem o que dizem ser essencial para a boa vida na sociedade de hoje em dia, muitos o invejam e muitos são invejados por ele, mas ele inveja apenas aqueles que como ele buscam uma resposta na luta eterna do mar.
Uma resposta que as ondas nunca vão mostrar.

Mundo Sozinho


Ao meu lado há um coração partido, largado ao vento, ao frio. Bate fraco, desiludido... Sua poesia já é de poucos versos. Talvez ahaja uma história de luta e vitória em seu passado e, aqui agora, bate fraco por um duro golpe que o destino lhe pregou. Há também a possibilidade de bombear o veneno de alguma doença sem cura e, aqui agora, olha esse pobre mundo podre enquanto deixa de viver.
É um coração e a quem olha? A quem pertence? Que lembranças o quecem? É um coração largado ao frio do esquecimento, batendo fraco, sem intentos. O que o fez ficar assim? Quanto vale? Amou? Sofreu? Ninguém pode saber, somento o coração que sente até mesmo o que já se foi, e o que foi?
Foi ele (um coração) e só.
Não posso fazer nada para salva-lo, talvez até seja um aviso, talvez seja meu coração, talvez apenas esteja aqui pra provar que mesmo diante do sofrimento mais profundo em uma pessoa, não fazemos nada para ajudar ou melhora-la.
O coração agora é mudo e o que impera é mente e mundo.

14 de jul. de 2010

Carta de Prazer com um Adiantado Adeus


Vivendo e aprendendo segue a pena caindo e o peito cedendo e é assim que a luta vai adiante, meus braços já não fecham, são as feridas de uma seringa viciada em mim. Já não sinto dor e nem esse ópio me faz efeito... O problema é o pedido do meu corpo que perde as forças, que pede o suicídio e que se excita a cada nova picada deste mosquito da morte. Meu corpo, meu templo de perdição, meus braços são territórios do prazer. O passado é passado quando corre por minhas veias o incessante prazer deste analgésico e atualmente só ele é capaz de me dar um orgasmo, esse sem igual, mas não recomendado. Jogam-nos na cara em alguns bons filmes a imperfeição dessa sociedade, nos pedem pra muda-la, mas poucos vêem esses bons filmes e poucos são os insatisfeitos com a sociedade. Eu, insatisfeito com a sociedade e comigo mesmo me escondo embaixo desse cadáver ambulante, e escondia a sociedade cada vez que injetava minha salvação... É ilusão acreditar que a salvação não cobra nada, a salvação tem um braço dado a perdição e esse segundo braço é maior e mais forte que o outro, me sinto perdido em minha salvação, a sociedade já não se esconde como antes e só me resta a raiva por essa sujeira toda, mas o corpo me impede de lutar, a mente me convence que é mais fácil aumentar a dose "isso vai dar certo!" ele me diz e eu vou cego e burro atender esse pedido que não para... Tenho consciência de que isso irá me matar um dia, mas se viver for olhar a vida com os olhos frustrados de quem não pode muda-la prefiro minha heroína, ela me faz deitar e esquecer que isso ainda existe. Por isso uma Carta de Prazer com um futuro Adeus.

PS1: Esse texto não procura fazer nenhum tipo de apologia ao uso de drogas
PS2: Não, eu não sou drogado.

1 de jul. de 2010

Sobre Aquilo que me Deu Vida


Mais me vale ter palavras pra contar e conta-las mal, do que guardar em silêncio esse medo inconstante de perder a chance de brilhar letras em futuros livros. Mais me vale a incerteza de um final, do que a ausência de um inicio. Mais me vale o vicio ao ócio, mais me vale a linha torta do que a escrita perdida. E valendo-se tudo assim ao escritor, segue esse seu caminho sem temor, lutando em frente de batalhas que não existem, velando tristezas em enterros no céu. Semear poesia nesse asfalto de impurezas, incertezas de compreensão, é o trabalho mais difícil que se tem em mãos, não mais honrado que aquele que cuida das feridas ilusórias do coração, nem mais imoral que aquele que entrega a carne ao prazer alheio. Escrever é arte, talvez a arte seja a vida, mas é a morte quem dita a eternidade de um autor. Morre uma poesia hoje, morre uma prosa amanhã e de tanto morrerem as boas letras, chegará o dia em que páginas em branco serão arte, nesse dia a árvore da escrita terá sido podada, as lendas de suas grandes raízes que ainda residem abaixo do chão, serão contadas como se os tempos bons fossem aqueles antigos, e nós, seus ramos novos apodreceremos em seu sangue encardido.

30 de jun. de 2010

Futuramente Presente


Chego à conclusão de que sonhar é individual, as pessoas não partilham os mesmos sonhos e talvez nem o mesmo objetivo. É difícil contar a história que me fez tirar essa conclusão... Ela ocorreu há muito tempo e até hoje o peso dela coloca meus ombros abaixo. Sou um escritor de longa estrada, faço isso pra ter o que comer. Tentei por vezes orgulhar meus pais com minha arte, mas eles morreram achando que eu não podia escrever assim tristemente, pois não tinha motivo para ser triste. Nunca tive o apoio para leitura ou para escrita, talvez não acreditassem em meu talento, ou apenas não me apoiaram pelo fato da escrita não ter me dado dinheiro naquela época. Mas eu segui, como um cego que busca um apoio, eu segui deitando a pena ao papel, contando histórias que eu julgava pertinentes, contando estórias que julguei bem pensadas. O papel de um escritor é viajar em sua própria mente morrer em seu ponto final e perpetuar-se em suas reticências. Pensei em destruir cada uma de minhas estrofes, guardar nas más lembranças a visão de mundo que eu tinha... Pensei em limitar minhas ilusões, em ser mais um reflexo do espelho que envolve a sociedade, quis largar o diferente e criativo e me apegar a cópia mal feita de uma história mal contada. Quando o monstro em nossa mente é mais forte que o medo em nosso coração, não há luta, a besta sempre vence... Assim continuei dando vazão aos urros intermináveis da minha cabeça... Continuei me apoiando nas minhas próprias pernas e ombros. Não sonho mais em receber apoio dos que amo, aqueles que nos amam são os que mais destroem nossas paredes... Eu me deito e me sujo em meus escritos até que eles me engulam para suas entrelinhas e eu preciso apenas disso.

20 de jun. de 2010

Romeu e Julieta


Cruzei meus olhos com os dela, estava sozinha em uma mesa, parecia triste, seus olhos imploravam companhia. Olhei ao redor e não havia mais mesas vazias, famílias completas e amigos de longa data infestavam o lugar de alegria. Ela lá sentada e sozinha era o preto e branco de uma foto colorida. Me aproximei e pedi cadeira, além claro de um pedaço da mesa, prometi não lhe incomodar, expliquei que tenho mania de comer rapidamente e sem tirar os olhos da comida era preciso apenas que ela ignorasse a minha presença. Ela aceitou, pareceu disposta e ver através de mim, me deu um sorriso, infelizmente o sorriso não apagou sua cara de tristeza... Sentei-me e comecei a comer, ela comentou o fato do lugar estar completamente cheio, eu concordei e lamentei o fato de ter de incomoda-la para almoçar, tinha uma bela voz, aquela moça sem nome, disse ela que eu não estava incomodando, que odiava almoçar sozinha, mas para afastar-se de casa fazia isso as vezes. A conversa continuou, não sabíamos o nome um do outro mas conversamos, como velhos amigos, ela foi se soltando, o sorriso apareceu em sua boca e agora eu era capaz de perceber a beleza daqueles olhos azuis. Perguntou-me o que costumava fazer, menti sobre minha carreira e sobre gostos pessoais, a beleza dela me cativava e a realidade sobre minha pessoa faria ela desistir. As garfadas foram passando e nós conversando, o ar ignorava o som que devia chegar até nós, o restaurante era lotado, mas havia ali apenas eu e ela. O assunto as vezes parava, mas nossos olhos não se desviavam, "pintava o clima" como costuma-se dizer hoje em dia, continuou assim o almoço até termina-lo, comprei refrigerantes para beber e poder continuar o papo, era um bom papo. Ela sabia conversar, era interessante, e parecia sincera, o que pensaria se descobrisse a fantasia em minha atitude? O que ela acharia do verdadeiro eu? Estas são perguntas sem tempo para serem respondidas, e continuando a falar de tempo, o tempo passou e eu já devia ir embora. Disse a ela que tinha um compromisso, ela sorriu gentilmente, disse que era uma pena, que estava sozinha e que não teria nada para fazer em casa. Fui obrigado a dizer-lhe a verdade, eu não tinha compromisso, apenas estava me achando inoportuno na mesa junto dela, convidei-a para irmos a outro lugar, quem sabe passear entre as árvores de um parque, disse a ela que apesar de tudo eu era de confiança. Ela disse de volta que saberia se defender caso eu não fosse... E assim saímos de lá, caminhamos até um parque próximo, olhar árvores é melhor do que caminhar olhando para prédios e carros. O clima melhorou e eu já queria aqueles lábios em minha boca, mulher encantadora... A caminhada foi longa e a conversa não decaiu em qualidade um segundo sequer, nos queríamos e ambos sabíamos disso. Finalmente nos rendemos ao encanto da situação, nos beijamos apaixonados pela atenção dada ao outro, e o beijo foi tenro, os lábios dela tinham, que José de Alencar me perdoe o plágio, eles tinham gosto de mel e duraram quanto nosso fôlego permitia durar, a mulher dos olhos tristes era agora uma menina de sorriso fácil... A paixão alegra o coração dos tolos... Mas Cronos é cruel e decidiu que aquilo não deveria tardar. Sorrimos um ao outro dizendo que tudo tinha sido ótimo, ela me passou seu número de telefone, enquanto eu dei o meu a ela, demos um beijo de despedida como um velho casal de namorados.
Gostaria de saber qual o motivo do tempo passar tão rápido nessas ocasiões em que queríamos que ele se estendesse ao máximo...

Viraram-se as costas, cada um em uma direção, jogaram os papéis com os números ao lixo... atualmente é assim a alegria, as belas histórias de amor, não passam de um dia.

e Dizemos Amor Sem Saber O Que Seja



Fala do Velho do Restelo ao Astronauta
José Saramago


Aqui, na Terra, a fome continua,
A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
E também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalme.

11 de jun. de 2010

Mais um Dia.


Hoje, quando o dia amanheceu refletiu perfeito o vermelho de seus cabelos. Seu cheiro impregnava meus sonhos e aposto que mesmo dormindo eu sorria, a completude batia em meu peito e o frio não me fez sentir com medo, seu corpo quente imediatamente me fazia adormecer. A madrugada, nossa velha companheira de estrada, assistiu o amor compartilhado em nosso sono e o abraço amarrado de nossos corpos. O dia amanheceu timido, sorriu aos poucos, sorrindo por nós dois atados, agarrados um ao outro. Há tantas palavras belas pra te dizer, tantos momento para recordar e tantas maneiras de te amar, dificil ordenar as palavras, deita-las em um texto curto que lhe declare todo o amor que sinto. O primeiro ano se aproxima, um ano que mudou nossas vidas, colocou mais vontade em nossas caras e mais sorrisos em nossas bocas. O tempo é quase inexistente quando estou com você, os dias são segundos, semanas minutos e os meses quando percebi já haviam passado. Um ano, uma história que se começa a construir juntos, é o primeiro ano, o primeiro dos muitos, e me sinto conhecido há tantos. É o dia dos enamorados e são tantos os presentes guardados, tento tira-los aos poucos e deixar-se ler em partes, mas a minha pele já têm um livro sobre você.

A Flor em Cada Um de Nós


O espelho, dono de todas as verdades do mundo, criador do infinito e pintor sem igual. Conheceu a face dos mais nobres, refletiu os pobres e teve em seus olhos todo tipo de sentimento. O espelho, dono do mundo, contraparte da mentira, complemento da verdade.
Narciso encontrou o infinito no espelho e deixou viúvas suas ninfas. O que terá ele encontrado na infinitude? Será o infinito o reflexo do que vemos na realidade? A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Nasceu uma flor no lugar de Narciso, filha criada de seu fim, ferida bela na terra. Os dias choram e quanto mais choram, mais belo é Narciso... Narciso eterno, como o infinito, Narciso infinito, como o espelho.
(Hoje somos todos espelhos, cada um reflete-se infinitamente em frente ao seu duplo, aquele preso no mundo dos espelhos, buscamos a infinitude em nosso olhar, Narciso vive ainda hoje.)

2 de jun. de 2010

Sonhos brancos, Vestidos com Asas



Verdade a Mão
Alexandre Ferreira (AlxSeth)

Cores enegrecem o meu quadro
Cheio de montanhas e buracos
Chuva fina que cai na estrada
Sonhos brancos, vestidos com asas

Mão de sangue, amor de mãe
Serenata cantante, palavra de dor

Gritos obscuros no quarto claro
Poesia suja com palavras belas
Batalhões de guerra armados com rosas
Sonhos negros, vestidos com asas

Mão de mãe, amor de sangue
Serenata de dor, palavra cantante

São apenas quadros
Munidos de fatos que ninguém entende
São apenas fatos
Mentidos em quadros que ninguém viu

São apenas sonhos
De alguém acordado
É apenas a insônia
De alguém que está sonhando

Mãe de sangue, mão de amor
Palavras na serenata, cantadas com dor

É apenas o que é
É apenas o que sou
É o que somos.